Bem-vindo à Genealogia da Família Carpes


A pesquisa da história de família é uma jornada emocionante para reconectar-se com suas raízes e tradições.

Pesquisador: Marcos Vinícius Carpes
Desde 1991

Pesquisa

Como tudo começou....

Era um domingo, nos Açores, Portugal, o velho sapateiro Manoel Pacheco, martelava o couro sobre a forma de madeira. O som seco e ritmado do martelo se misturava ao estalar do fogo no braseiro. A oficina era pequena e escura, impregnada pelo cheiro forte do couro curtido, misturado ao suor de um homem que já perdera mais sonhos do que tinha forças para sonhar.

Ao seu lado, sua esposa Francisca Xavier, fiava a lã. Seus dedos não paravam, mas os olhos iam longe, inquietos. Por fim, num sussurro temeroso, rompeu o silêncio: — Ouviste, Manoel? — disse, quase como se falasse para si mesma.

— O Padre voltou a pregar contra os cristãos-novos. Dizem que a Inquisição pode mandar homens para cá… até para a nossa Ilha de São Miguel.

O sapateiro largou o martelo devagar. Olhou pela janela e avistou no quintal, Simão e Francisco, o filho mais novo e o mais velho do casal, brincando com pedaços de madeira que fingiam ser espadas. Um aperto lhe subiu à garganta e respondeu: — Ouvi sim, mulher — disse Manoel à esposa Francisca. — Ouvi com muita preocupação a fala do Padre durante a Missa e também li o Edital Real, colado na porta da Igreja, no qual o Rei — que Deus o tenha — oferece aos moradores das Ilhas transporte gratuito para aqueles que desejarem se estabelecer além-mar, na imensidão do Brasil Colônia.

Disse, ainda, que o monarca prometia terras, ferramentas, sementes e bois, a fim de auxiliar o início do cultivo das lavouras. — Infelizmente Francisca, por causa da nossa idade, nós não poderemos embarcar para o Brasil, mas os nossos filhos, Francisco e Simão… Ah, eles sim! Eles poderão ter uma vida nova, livres do perigo da Inquisição e com uma grande oportunidade de alcançar algo melhor do que nós temos aqui. — E por isso decidi — completou com voz grave: — Eles irão! 

Francisco, o mais velho, já com aproximadamente vinte anos, percebeu o tom do pai. Aproximou-se da porta, hesitante: — Pai… para onde? O silêncio demorou, pesado como chumbo. Então Manoel respondeu: — Para o Brasil.

É a única chance de não serem esmagados por este tempo cruel.

Francisca deixou cair a roca de fiar. Com os olhos marejados tocou o ombro do marido. Nenhum dos dois disse mais nada, pois sabiam que quem cruzava o mar, raramente voltava. 





A Viagem para o Brasil

A nau começava a soltar suas velas, afastando-se lentamente do cais da Ilha de São Miguel, quando o inverno de 1755 parecia tornar-se ainda mais frio. A embarcação rangia como se fosse partir-se em dois, o vento cortante misturava-se ao pranto contido dos que ficavam, e ao gesto aflito das mãos que acenavam no porto. Era como se cada lenço erguido, cada braço estendido, quisesse segurar o navio e impedir-lhe a partida.

Pouco a pouco, a distância transformou rostos em vultos, e vultos em sombras. Logo, nem a ilha, nem o arquipélago se distinguiam mais. Restava apenas a vastidão cinzenta do mar, imensa e indiferente, engolindo em silêncio a saudade dos que partiam e dos que ficavam. A viagem, porém, mostrou-se dura desde os primeiros dias. O balanço constante, a umidade que encharcava roupas e ossos, o cheiro de corpos amontoados — tudo fazia da travessia um suplício. As mulheres eram mantidas nos porões, em compartimentos estreitos e escuros, vigiadas de perto pelos guardas do navio, como se fossem carga frágil e suspeita.

Apenas aos domingos lhes era permitido subir ao convés, quando o capitão ordenava a celebração da missa. E era nesse instante, sob o céu aberto e o mar sem fim, que as vozes se uniam em cânticos trêmulos de fé. Ali, no convés, por um breve momento, esqueciam as correntes do cotidiano da viagem e sentiam que Deus navegava com elas. Depois, voltavam às sombras do porão, embaladas pelo ranger da madeira e pelo presságio do desconhecido que as aguardava.

Francisco abraçava o irmão. — Não chores, Simão. Logo chegaremos. — Mas a mãe… — soluçava o menino de quatorze anos, agarrado ao casaco fino que não bastava contra o frio. 

— Nossos pais fiseram isto por nós, disse Francisco. Para que vivamos livres, longe da Inquisição. — forçou um sorriso. — Dizem que lá há rios que parecem mares… e árvores maiores que torres de igreja. Simão calou-se. Guardava no peito a saudade que ardia como ferida aberta. 


Transcrição Batismo Simão